domingo, 17 de janeiro de 2016

primeiro
o ritmo:
sorrisos são
cadências, e os olhos
olhando são
pausas.

veio
num gingado
bom, muito
bom, me agradou
- pode ser, tanto
faz, vamos lá
meio à bruma
ousar,
foi
o que
disse.

depois o coração
do espírito da própria
existência é um pulso
pulsando
rápido e
baixo,
e procuramos
pegar disto e
colocar numa
jarra com uma
tampa, uma tampa!

eu digo:
deixa vibrar
por favor
freneticamente
livre
como flores largadas
num jardim reles:
às vezes ao sol
às vezes
não.

sábado, 16 de janeiro de 2016

traz à tona
este ímpeto
que te consome:
tudo muda o tempo
todo
e é
preciso
dançar
também.
o câmbio
é a lei
e a verdade
é o que transforma:
o rio é largo
facilmente
mesmeriza
o movimento
é frenético
jovem e maduro
caminha no meio
ereto:
é mulher
e homem
de duas árvores
com a mesma
raiz.
caminha no meio
e traz à tona este fogo
este ímpeto
sede quente
como o sol
sobre imensos
desertos: tudo passa
passa tu também
e os costumes
do povo:
tudo passa
mas nunca
o amor -
quem antes buscava
sabedoria
agora busca força
que pontuava frases
agora desdenha
até às vírgulas
quem antes queria príncipe
agora quer ser solidão
e quem antes sonhava princesa
agora procura uma companheira
que saiba conversar
e estar presente
nos momentos
que não importam
na realidade.
homens dançam
com homens e com
mulheres dançam com
mulheres e homens
se assim desejam
e desejar é sem medir:
traz à tona
pois se
te consome.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Vamos deixar
De lado o clichê
Da poesia soturna
E dizer isto: amo
Acordar de manhã
Bem cedo e ficar
Em silêncio enquanto
O sol aquece minha pele
Que a noite esfriou.
Amo as crianças e tudo
O que elas fazem sem saber
Para acabar com a paz dos adultos.
Amo os cães, os cães também,
Não somente aos gatos
Como amam aos gatos
Poetas tão pouco felinos,
Apesar de amar, amar, amar
Aos gatos também.
Amo a neve que nunca vi
E me suponho na frente dela
Tão encantado com sua imensa
Fragilidade e brancura que sequer
Ousaria levar minhas mãos duras
De encontro à pureza fria de tal beleza.
Amo... Amo amar! Que foi feito
Desta arte? Alguém abriu a caixa
De Pandora e supomos agora,
Veja bem, supomos, que beleza
Significa sofrimento e distância.

Não, não... Amo principalmente
Ao ínfimo próximo. E esta arte que
Parte de mim sabe tocar a beleza
Desconhecida com a ponta dos dedos
E reverência mais do que
Profunda.

Vamos deixar
De lado o clichê:
Do que mais necessita
A vida?

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Eu tenho
Pensado
Muito e
A conclusão
À qual cheguei é:
Devo parar
De pensar.

Quero esquecer
Destas terríveis
Eleições Presidenciais,
Que existe gente
Que apoia a miséria,
Que existe gente
Que apoia o opressor:
É a mesma gente
Triste que nunca
Pára de pensar
E, por estas e outras,
É cheia de ânsias
Descabidas e medos
Infundados.
Em nome
Da minha calma
E em nome da minha
Coragem: não
Pensar.

Os animais
De rebanho
Remoem esclarecimentos
Regurgitados: quero esquecer, melhor,
Quero não pensar que vivo
Num país onde as pessoas
São analfabetas por um misto
De preguiça e manipulação
Social! Escrever para quem não lê,
Ah, escravos vitalícios da mídia,
Quero esquecer isto
E não ser artista!

Talvez eu deva
Me exilar no Uruguai
E casar com uma mulher de fibra
E fumar toda a maconha do mundo
E não pensar em mais nada:
Tenho medo que por aqui
Até sonhar se torne um pouco
Mais difícil...

Se ao menos meus irmãos
Soubessem como reprimem
Uns aos outros...
Ainda que nunca antes
Tivesse ouvido teu canto,
Pássaro negro, asas quebradas,
Saberia eu te identificar na primeira
Nota: não existe
Outro som igual
Ao da tua
Tristeza, não
Existe!

Chet, amado, amigo,
Eu também estou
Perdendo os dentes
Por flertar tão profundamente
Com esta vida
Puta...

Além de mim,
Quem mais,
Quem mais
Para entender
A tua face
De terra
Seca?
É necessário estar em silêncio.
É necessário estar em silêncio
Numa manhã, talvez, qualquer.
É necessário estar em silêncio
Numa manhã, talvez, qualquer,
Para que se possa sentir o poder
Que surge do silêncio como água
Límpida das rochas tristes imóveis.
É necessário estar em silêncio
E necessário estar sozinho.

É necessário estar sozinho, às vezes,
Mas principalmente sozinho
Dentro de si mesmo, porque
Para todos os lados que olho
Há um olho me olhando de volta:
Há necessidade de que se cerrem
Todos os olhos do mundo,
Que as bocas nem sequer
Nasçam - não haverá discurso.

É necessário estar em silêncio porque,
De dentro pra fora,
Meu mundo fica
Muito mais
Sereno...

Mas, meu deus, é tão difícil!
É necessário estar em silêncio:
Acontece que
Dentro da cabeça
Eu tenho
Um macaco
De estimação.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Eu poderia
Chorar agora.
Eu poderia,
Mas chorar
É muito fácil.
Não... Já chega
De chorar... Eis:
Talvez eu tenha chorado
Tanto que já não tenho
Lágrimas. Sábio,
Sábio é o homem
Que aprende com
O passado sem
Se apegar a ele.
Eu aprendi:
Não vale a pena.
Já me desgastei
Muito em outras
Ocasiões - na verdade
Estou farto de me fazer
De vítima. Eu poderia
Chorar, mas o choro
É muito fácil, e minha
Intenção é deixar pra lá
O conforto.

Eu poderia chorar, isto
Não me ajudaria.
Eu poderia, à maneira
Mais doentia, dormir depois,
Mas não me ajudaria.
Eu poderia balbuciar
Aos céus, usar todas drogas
Do mundo, me embriagar,
Me embriagar, me embriagar...
Muito fácil...

Não.
Tudo o que farei
É isto: ficarei aqui
Sentado, queimando
Algum cigarro estranho
Que me console, tentarei
Não pensar...

Dizes que sentes que nem tudo
Está acabado entre nós dois. Dizes
Enquanto te maquias para sair com outro
Homem, um qualquer, um coitado, um
Fodido... És dele... Que absurdo! És
Dele...

Dizes,
E eu finjo
Não ouvir.
O choro
Não convém:
Tentarei
Não pensar...